Ribeiro e Reinalda namoraram por 6 meses e meio.

– Não, foram quase 7 meses!  – corrige Ribeiro.

Ok, a Reinalda e o Ribeiro namoraram por quase 7 meses, foi intenso, mas terminou com os dois magoados, estressados e melancólicos.

– Não, aquela desalmada não sofreu. Eu é que fiquei estressado, machucado e melancólico – corrige Ribeiro outra vez.

Mas o tempo passou, cada um seguiu seu rumo e o Ribeiro conheceu a Leka. Rolou clima, eles conversaram, a Leka também tinha passado por dores na área afetiva, mas estava pronta pra um novo love, ao contrário do Ribeiro…

– Como assim, ao contrário do Ribeiro?! – pergunta Ribeiro, indignado. – Eu também estava pronto pra um novo amor. Já tinha superado a decepção do relacionamento com a Reinalda, aquela pedra de gelo ártico. Vida que segue, não sou homem de olhar pra trás e ficar me lamentando.

Não tinha superado. O namoro com a Leka começou bem, mas logo uma pulga pulou atrás da orelha do Ribeiro e por lá ficou. Ele tinha quase certeza de que a Leka também não estava com ele por amor, mas por interesse. Era quase certeza. Aquela quase certeza ficava rodando na cabeça do Ribeiro, que até achou que tinha deixado o passado pra trás. Mas ele não conseguia parar de desconfiar da Leka, exatamente como desconfiava da Reinalda.

A Leka bem que tentou conversar, acalmar o Ribeiro, mostrar que ela e a Reinalda não eram parecidas, mas não adiantou.

Três meses depois de começar com (quase) tudo pra ser bonito, o namoro terminou e o Ribeiro afundou outra vez na areia movediça do sofrimento repetido.

E sabe o que é o pior desse desfecho? O Ribeiro nunca teve certeza. Mas o medo de não merecer amor era tão grande que a quase certeza já bastava pra botar um fim no relacionamento. Era tortura demais conviver com a quase certeza de despertar só interesse, não amor. A quase certeza podia virar certeza no segundo seguinte. Isso seria insuportável. Melhor terminar ali.

Os relacionamentos dele terminavam sempre ali. No quase insuportável. Só que a noia não terminava ali nunca. Seguia junto com ele pro próximo relacionamento. E ele botava a culpa no amor, dizendo que o amor só causa sofrimento.

– O amor é uma armadilha para ingênuos!  

. . . . . . .

É desse jeito que muita gente está. Como o Ribeiro.

“É óbvio que ele tem um compromisso com a dor”, dirá alguém.

Não, ninguém tem compromisso com a dor, nem o Ribeiro. Se você reler a história, verá que o Ribeiro tem um compromisso com fugir da dor. E é tão grande seu esforço pra fugir da dor que ele causa ainda mais dor – a si e às pessoas com quem se envolve.

É um círculo sem fim de medo da dor fuga da dor mais medo da dor mais fuga da dor mais medo da dor mais fuga…

O Ribeiro se sentiu sacaneado pela Reinalda, a Reinalda se sentiu sacaneada pelo Ribeiro, a Leka também se sentiu sacaneada pelo Ribeiro e o Ribeiro terminou com a Leka com medo de ser sacaneado por ela.

Cada um culpa o outro e todos talvez culpem o amor. “O amor é uma armadilha para ingênuos”, falou o Ribeiro.  

O amor não é uma armadilha. O atropelo e a carência afetiva em que vivemos – atrás da cara-metade, de segurança, de quem nos ouça e compreenda, de um sentido pra estar vivo – produz em todos nós um jeito automático de reagir e esse mecanismo subconsciente é que está fazendo as pessoas desconfiarem umas das outras. Isso não tem nada a ver com o amor.

Ninguém faz mer… por escolha. Faz porque nem sabe o que tá fazendo. É nisso que a gente acredita: por trás de cada comportamento nada a ver existe um menino assustado, uma menina assustada.

E há um caminho pra acalmar e harmonizar essa criança dentro de nós.

É no que acreditamos e é isso que vemos todos os dias.

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