O tímido sente extrema dificuldade de interagir com olhares, gestos e palavras alheios. Mesmo se for um tímido que pariu uma camada de extroversão. Quem é tímido sabe bem que não tem coisa pior do que os outros perceberem isso. Pego no flagra, cada célula do corpo treme e cora.

Mas uma coisa que o próprio tímido não percebe (porque está ocupado demais tentando não parecer tímido) é que a timidez não tem nada a ver com os outros. O abismo é bem mais embaixo – ou mais amplo, como cordilheiras.

A palavra medo (de si mesmo) não parece mais exata do que timidez pra explicar a timidez?

E repare como a timidez tem cheiro de vertigem de se saber da própria alma – de se mostrar pra si. É que o tímido é um exímio caminhante das beiradas de suas próprias profundidades. Pressente que no porão há portas, janelas e caixinhas com cordilheiras que ainda não abriu. Isso assusta. E se ele cair do próprio penhasco e descobrir que pode voar?

Que olhares, gestos e palavras vou encontrar quando estiver livre das minhas próprias limitações imaginárias?

Dos valores que não são meus, das crenças que roubam meu ânimo e me enchem de culpas que nunca foram minhas porque, pensando bem, não fazem o menor sentido pra mim? 

E se essa outra eu for maior que eu, que tento aparentar ser menor que ela? Será mais complicado – ou o mais complicado é não ser?

E você, o que acha que vai acontecer quando girar a sua maçaneta? Quando descer as escadas até o porão? Quando pular do seu penhasco e voar?

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